Menu principal
Resistência Camponesa
rc19b
Artigos arquivados
Receba nossos emails
Faça sua inscrição para ser avisado quando uma nova notícia for publicada.
 
Atualizações 



Página inicial Arquivos 2010 Após 15 anos Fazenda Santa Elina é cortada pelos camponeses
Após 15 anos Fazenda Santa Elina é cortada pelos camponeses
Escrito por Resistência Camponesa   
Ter, 26 de Outubro de 2010
Entrada da Fazenda Santa Elina tomada pelos camponeses - 2010Depois de 15 anos de muita luta e resistência, finalmente as terras da fazenda Santa Elina começaram a ser cortadas pelas mãos dos camponeses.  No mês de outubro foi concluído o corte popular de parte da Fazenda Santa Elina totalizando 3.164 alqueires (correspondente a área denominada como Água Viva) que já não pertence mais ao latifúndio.  

Bandeiras do CODEVISE e da LCPTodo o processo do corte foi decidido, preparado e executado pelos próprios camponeses, organizados pelo CODEVISE – Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina e pela LCP – Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental. Em assembléia foi definido todos os detalhes de como seria feito o corte e uma comissão foi encarregada para executar a decisão. Vários camponeses foram envolvidos e se revezaram nas diversas tarefas, enquanto uns operavam os equipamentos, outros preparavam a alimentação, outros carregavam água, abriam picadas, organizavam os marcos, etc.

 Os trabalhos se iniciavam de manhã bem cedo e iam até tarde da noite. E assim foi diariamente, durante quase dois meses de trabalho. Apesar de cansativo, era um trabalho feito com gosto e que dava alegria em todos, pois sabiam que estava sendo concretizada uma promessa de mais de 15 anos.

 Estavam cortando a terra com suas próprias forças sem depender de enrolação e mentiras de Incra e de nenhum órgão do governo.  A terra que antes era de apenas uma família e só produzia capim e miséria, agora serve para produzir alimentos, sustentar centenas de famílias e desenvolver a região.  E mais que isso, foi finalmente cortada a terra que a 15 anos atrás foi regada com o sangue de tantos companheiros que por ela lutaram. E por isso o corte dessa terra tem um significado muito especial.

Chegada de famíliasA área foi cortada em cerca de 250 lotes de 8 alqueires e foi preservado cerca de mil alqueires de mata. Assim que as linhas iam sendo abertas, recebiam o nome de um dos camponeses assassinados em 1995. E a medida que as parcelas iam sendo cortadas já era prontamente realizado o sorteio e a entrega dos lotes aos seus novos e legítimos donos. O sorteio foi realizado por grupos, por ordem de chegada ao acampamento e intercalando com as famílias das vítimas de 1995.

 Durante os sorteios, muitos não conseguiam esconder a emoção. Vários camponeses tiravam o papelzinho com o número do seu lote com os olhos brilhando, outros nem conseguiam abrir de tanto que a mão tremia. Nas diversas falações, os camponeses expuseram a imensa alegria que estavam sentindo pela realização do sonho de ter um pedaço de terra, e a maioria falou com firmeza: “dessa terra, agora ninguém me tira mais!”.

E várias famílias não perderam tempo, já partiram pra cima de sua parcela, estão construindo suas casas e iniciando a produção. Vários lotes já foram gradeados e iniciaram a semeadura de diversos cultivos. Além disso, uma horta coletiva já havia sido organizada desde o início de setembro.
Trator gradeando a terra - 2010terra pronta para receber as sementesplantio de sementes


Velho Estado que manter os camponeses fora da terra, pagando multa ou na cadeia

Mas o avanço da Revolução Agrária na área da fazenda Santa Elina não tem sido fácil. Além de ter que enfrentar diversos elementos oportunistas dentro e fora da área, os camponeses têm sofrido com as ameaças do velho Estado, através de seu judiciário e aparatos policiais.

 Desde a ocupação em 25 de julho de 2010, já foram mais de 5 incursões seja da polícia militar como da civil na área. Em todas elas o objetivo era intimidar os camponeses, ameaçar e mesmo prender lideranças, além de fazer levantamento e reconhecimento da área para ações de repressão.

Já a juíza Sandra Beatriz Merenda, da 2ª Vara Cível de Vilhena, expediu em agosto de 2010 uma liminar de reintegração de posse para a área ocupada, alegando que “se trata de propriedade plenamente produtiva”, estipula multa diária de R$ 500,00 e determina que a polícia identifique e conduza os ocupantes para a delegacia. Além disso, determinou para as fazendas vizinhas o interdito proibitório, mandando prender todos os que simplesmente estiverem próximos daquela área.

 Em nenhum momento a juíza leva em consideração o fato de que a área em questão já foi palco de um dos mais sanguinários crimes do latifúndio contra a luta camponesa. A juíza simplesmente ignorou todo o processo de discussão do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina com o governo federal , tendo inclusive a área sido disponibilizada para fins de reforma agrária, através de decreto.

Mas como é de praxe em Rondônia, a “justiça” do velho Estado serve aos interesses dos exploradores, os latifundiários, os grandes burgueses e seus politiqueiros. E a cada nova decisão judicial enquanto por um lado se ataca os mais pobres, particularmente os camponeses, e criminaliza sua justa luta, por outro a “justiça” acoberta os mais odiosos crimes do latifúndio.


Incra se soma aos ataques contra a luta das famílias da Santa Elina

Vítimas de Santa Elina em Brasília exigem indenização e corte da Fazenda Santa Elina - 2007Recentemente funcionários do Incra de Colorado  do Oeste tem dado declarações responsabilizando as famílias que ocuparam a área pelo não andamento do processo  de desapropriação da Fazenda Santa Elina. Ora, já são mais de 15 anos de espera, de negociações, conversas, acordos e promessas não cumpridas. Será que é mesmo responsabilidade das famílias até hoje a Santa Elina não ter sido cortada pelo governo? Com razão o povo já cansou de esperar por quem não vem, já cansou de esperar pela falida reforma agrária do governo e agora está aplicando a Revolução Agrária, tomando e cortando as terras e entregando as parcelas para quem nela trabalha.

Manifestação em CorumbiaraE várias famílias da área afirmam sem dúvida, “que se hoje estamos vendo a Santa Elina sendo cortada, devemos isso a LCP e principalmente ao CODEVISE, que desde muitos anos tem lutado com nós, fazendo ocupações, denúncias, organizando tratamento de saúde, fomos a Brasília acampamos quase um mês lá em 2007, acampamos na terra várias vezes... Se não fosse a Liga e a luta das vítimas, ninguém nem estaria discutindo sobre essas terras hoje.”

E diante das ameaças de repressão e despejos, reproduzimos trecho de nota do CODEVISE, onde deixa claro a disposição de resistência das famílias: “E uma vez mais, reafirmamos que nós, vítimas de Santa Elina e demais camponeses que desde o dia 25 de julho estamos acampados nessa fazenda estamos dispostos a resistir a qualquer tentativa de despejo.

Essa terra é nossa, está regada com o nosso sangue e o de nossos familiares. Retomamos essa terra e dela não vamos mais sair, aqui vamos cortar os lotes, distribuir para as vítimas de Santa Elina e demais famílias de camponeses pobres. Nessa terra vamos trabalhar, viver com dignidade e construir um novo futuro para nossos filhos, custe o que custar!.”

Que assim seja!

 
 
Página inicial | Notícias | Arquivos | Jornal RC | Fotos | Vídeo / áudio | Contato | Mural de recados | Mapa deste sítio