| Incra quer despejar as famílias da fazenda Santa Elina e repetir conflito de 1995 |
| Escrito por Codevise – Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina | |||
| Sex, 11 de Novembro de 2011 | |||
No dia 9 de novembro chegou a área Zé Bentão uma comitiva do Incra, composta pelo superintendente regional do Incra Carlino Lima, a ouvidora agrária regional Márcia do Nascimento Pereira, o coronel da PM Marcio Araújo Pinto, o delegado agrário Lucas Torres Ribeiro, além de diversos outros policiais civis e militares fortemente armados de fuzis e metralhadoras, em um total de 5 viaturas. Como de costume, vieram sem nenhum aviso prévio, na verdade antes da data que havia sido marcada anteriormente. Foi improvisada uma pequena reunião e numa atitude extremamente arrogante Carlino Lima começou afirmando que só ele iria falar. Em sua falação ficou exaltando os benefícios do Incra, créditos e outras promessas mais. Afirmou que agora ele e o Incra é que eram os donos das terras da fazenda Santa Elina, que foi comprada com dinheiro do tesouro nacional. Só esqueceu de falar que o povo é o legítimo dono desse dinheiro arrecado de impostos, e que com a desapropriação da fazenda enriqueceu ainda mais o latifúndio. Na sua falação também colocou os critérios do Incra para adquirir um lote, o tal perfil da “reforma agrária”. Afirmou que iriam fazer um “pré-cadastro” e quem não passasse no perfil seria excluído e mesmo quem passasse deveria sair das terras, acampar no Incra em Colorado do Oeste para fazer o cadastro e só então iria ser resolvido quem iria ser ou não “assentado”. Na verdade toda essa estória de cadastro esconde a real intenção do Incra que é despejar as famílias que vivem e trabalham na área Zé Bentão e Maranata. O que eles querem é colocar outras pessoas no lugar das famílias que há tanto tempo estão lutando dentro da área. Nesses cadastros só é aprovado quem os funcionários do Incra quiserem. Quando foi perguntado o que fariam as famílias que não tinham pra onde ir, a ouvidora agrária Marcia respondeu friamente que cada um voltasse para onde veio com uma mão na frente e outra atrás. Nem pra fazer demagogia sequer colocaram a possibilidade de outra terra. Nessa mesma reunião, mais uma vez o Incra e em especial a ouvidora agrária Márcia, mostraram como jogam sujo e se utilizam de muitas artimanhas para enganar o povo inclusive a mentira mais descarada. Disseram que iriam passar uma lista para registrar a presença na reunião. Porém a “inocente” lista da Márcia era para uma “desocupação pacífica do imóvel para posterior assentamento”. Incra usa polícia para intimidar e ameaçar camponeses
O coronel da polícia militar, Marcio Araújo Pinto, em sua falação afirmou que ele tinha o “sonho de ver as pessoas conquistarem um pedaço de terra para serem assentadas”. Isso não é sonho, já é realidade, hoje mais de 300 famílias vivem e trabalham em seus lotes há mais de 1 ano, e se a proposta do Incra for posta em prática esse sonho vai ser destruído. O coronel também afirmou que em 1995 não houve massacre, pois houve perda dos dois lados. Disse também que o povo deveria esquecer o passado, pois quem vive de passado é museu.
O coronel ainda teria dito que hoje os policiais são outros e agem de forma diferente daquela época. Realmente mudaram alguns personagens, mas a história continua a mesma.
E mesmo personagens antigos estão aí atuando impunemente como é o caso de Valdir Raupp na época governador de Rondônia e o latifundiário Antenor Duarte, isso para citar só os mandantes do massacre. As instituições do velho Estado incluindo a polícia continuam agindo no sentido de preservar os interesses dos ricos e poderosos, enquanto para o povo pobre agem sempre com repressão, seja ela da forma mais brutal ou sutil. E nisso não há nenhuma diferença entre hoje e 1995.O coronel também afirmou que a polícia age primeiro pacificamente e depois usa a força militar. É impossível não lembrar dos acontecimentos de 1995. Quem estava na fazenda Santa Elina naquela época lembra que um dia antes do massacre (8 de agosto), a polícia através do major PM Ventura garantiu que não haveria represálias por parte dos policiais, porém o resultado da ação policial no dia seguinte todos sabemos qual foi. Os camponeses não vão abandonar suas posses
Já são mais de 16 anos de luta e todo esse tempo o povo só viu enrolação, enganação e falsas promessas por parte dos órgãos do velho Estado. Só depois que o povo cansou de esperar e começou a aplicar a Revolução Agrária, conquistando a terra, cortando a terra, produzindo em cima dela e se organizando para resolver seus problemas, aí que o Incra apareceu. Muitas famílias tinham ainda um restinho de esperança que o Incra iria finalmente acertar uma conta histórica regularizando o corte já feito pelos camponeses e terminar de cortar o restante da fazenda Santa Elina. Porém ao invés de terra o povo só tem ganhado repressão. Basta ver como várias áreas estão sendo despejadas com participação ativa do Incra e da ouvidoria agrária, como o caso recente da área Barro Branco em Chupinguaia onde as famílias foram despejadas da área e nem na estrada puderam ficar acampadas.
Por fim queremos afirmar que não vamos aceitar ser mais uma vez enrolados e enganados. Exigimos que o Incra respeite a organização interna da área. Exigimos que o corte da terra seja respeitado, sendo 296 lotes de 8 alqueires mais 4 alqueires de reserva em bloco (Sem contar as terras da fazenda Maranata e Nossa Senhora Aparecida que ainda não foram cortadas). Exigimos que todas as pessoas que hoje vivem e trabalham em cima de suas posses tenham direito de continuar em cima da terra produzindo. E exigimos que cesse qualquer intimidação por parte da polícia. As famílias da área Zé Bentão só querem continuar trabalhando dignamente. Não queremos conflito, mas também não estamos dispostos a perder tudo o que conquistamos com muita luta, suor e sangue e por isso resistiremos a qualquer tentativa de despejo. E caso ocorra um conflito, o Incra, a ouvidoria agrária, o governo federal e estadual, e a polícia serão inteiramente responsáveis pelo que ocorrer de mal as famílias de camponeses. O povo quer terra, não repressão! Defender a posse pelos camponeses da fazenda Santa Elina!
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